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Witch house: o gênero oculto que antecipou o lado sombrio do phonk e do funk

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Witch house: o gênero oculto que antecipou o lado sombrio do phonk e do funk

Por volta de 2009, um som estranho começou a circular em blogs e fóruns. Era lento, arrastado, cheio de vozes distorcidas como se viessem de outro mundo. As capas tinham cruzes, triângulos e símbolos impossíveis de digitar. O nome que pegou foi witch house, e durante uns poucos anos ele foi o gênero mais comentado e mais ridicularizado da internet.

Depois, ele sumiu quase tão rápido quanto apareceu. Mas a estética que ele criou nunca foi embora. O clima ocultista, as vozes desaceleradas e a escuridão como linguagem reapareceram no cloud rap, no phonk, no sigilkore e até no funk bruxaria brasileiro. Este guia conta essa história.

O que é witch house

Em resumo, é música eletrônica lenta e sombria. A base mistura batidas de hip-hop arrastadas, sintetizadores escuros, ruído e vozes desaceleradas ou distorcidas até ficarem irreconhecíveis.

O clima é de ritual. Não é música pra festa animada, é música pra madrugada fria, com luz baixa e neblina. Por isso, muita gente descreve o witch house como trilha sonora de filme de terror que nunca foi filmado.

Além disso, o gênero sempre teve um pé na estética. As capas, os nomes dos artistas e os clipes eram tão importantes quanto o som. Ou seja, era uma cena visual tanto quanto musical.

Também chamado de drag

Nos primeiros anos, o estilo também foi chamado de drag, por causa do jeito arrastado das batidas e das vozes. O termo perdeu força, mas ainda aparece em textos da época.

Um nome que nasceu como piada

A origem do rótulo é curiosa. O termo costuma ser creditado ao produtor americano Travis Egedy, conhecido como Pictureplane, e ao amigo Jonathan Coward, o Shams. Por volta de 2009, eles queriam um nome pra música de dança com temas ocultistas que estavam fazendo.

Segundo o próprio Egedy, o nome surgiu meio de brincadeira. Era uma forma de descrever uma house music com clima de bruxaria. Só que a piada pegou, e em pouco tempo blogs e revistas passaram a usar o termo pra uma cena inteira. A página do witch house na Wikipedia registra essa origem.

Assim, como acontece com muitos rótulos da internet, o nome chegou antes de existir um movimento organizado. Os artistas, muitas vezes, nem gostavam de ser chamados assim.

Salem e o disco que definiu o gênero

Se existe um nome central pro witch house, é o trio americano Salem. O grupo se formou em 2006, em Traverse City, no estado de Michigan, e lançou em 2010 o álbum King Night.

O disco é considerado a obra mais importante do gênero. Ele junta vozes graves e desaceleradas, coros que soam como igreja abandonada, batidas de rap lentas e camadas de ruído. É bonito e assustador ao mesmo tempo.

Além disso, o Salem ficou famoso pelos shows instáveis e pelo visual sombrio. A banda virou símbolo de uma estética que misturava subúrbio americano decadente, drogas, religião e terror.

Tri Angle, Disaro e a cena de 2010

Por volta de 2010, alguns selos viraram vitrine do estilo. O mais lembrado é o Tri Angle, ao lado do Disaro. Por eles passaram nomes como oOoOO, Balam Acab e Holy Other.

Cada um tinha o seu jeito. O oOoOO, projeto de Christopher Greenspan, lançou em 2010 um EP com o próprio nome, sombrio e melódico. Já o Balam Acab apostava em texturas aquáticas e vozes etéreas. O Holy Other, por sua vez, trabalhava com um clima mais romântico e melancólico.

Ou seja, mesmo dentro do witch house, havia espaço pra delicadeza. Nem tudo era terror, muita coisa era só tristeza em câmera lenta.

Como soa o witch house

Se você nunca ouviu, alguns elementos ajudam a reconhecer o estilo.

A herança do chopped and screwed

Primeiro, a velocidade. O gênero herdou do rap de Houston a técnica de desacelerar músicas e vozes. Essa tradição nasceu com DJ Screw, nos anos 1990, e a gente conta essa história no guia sobre o chopped and screwed.

Sintetizadores de catedral

Depois, os timbres. Os sintetizadores soam como órgãos de igreja, coros sintéticos e drones longos. Assim, a música ganha um ar religioso, quase litúrgico.

Batidas arrastadas

Além disso, as batidas vêm do hip-hop e do trap, mas tocadas devagar. A caixa cai pesada, com muito eco, e o chimbal às vezes aparece em rajadas rápidas, como no trap.

Vozes fantasmas

Por fim, as vozes. Elas raramente aparecem limpas. Em geral, vêm desaceleradas, abafadas ou picotadas. O efeito é de assombração, como se alguém cantasse do outro lado de uma parede.

Triângulos, cruzes e símbolos: a estética

O visual do witch house era tão marcante quanto o som. Os artistas usavam nomes cheios de triângulos, cruzes e caracteres especiais, como ▲, ✝ e ☾. Isso tinha um efeito prático: tornava os nomes quase impossíveis de buscar na internet.

Por isso, muita gente via o recurso como provocação. Era uma forma de fugir do algoritmo e de criar uma cena só pra quem já estava dentro. Pra descobrir uma banda, era preciso conhecer alguém.

Além disso, as capas usavam fotos granuladas, imagens de ocultismo, recortes de filmes antigos e muito preto e branco. Hoje, essa estética reaparece em artes de phonk, em edições de vídeo e em flyers de festas sombrias.

Os parentes góticos do witch house

O gênero não surgiu do nada. Pra muita gente que ouviu na época, ele lembrava a música gótica e etérea dos anos 1980, com bandas como Cocteau Twins e Dead Can Dance. As vozes que soam como sussurro, os sintetizadores de catedral e a melancolia constante vêm desse imaginário.

Além disso, havia um parentesco com o darkwave e o post-punk, gêneros que sempre trataram a tristeza como estética. A diferença é que o witch house trocou a guitarra e a bateria acústica pela batida de rap desacelerada e pelos timbres digitais.

Ou seja, era uma ponte entre dois mundos: o gótico clássico e o hip-hop da internet. Essa mistura explica por que o som atraiu tanto quem vinha do rock alternativo quanto quem vinha do rap.

O peso da internet

Também é impossível separar o gênero do momento em que nasceu. Por volta de 2010, blogs de música, sites de compartilhamento e as primeiras redes sociais ditavam o que era novidade. Assim, um som podia surgir, viralizar e cansar em poucos meses. O witch house foi um dos primeiros gêneros a viver esse ciclo acelerado.

Por que o witch house sumiu

O auge foi curto. Por volta de 2011 e 2012, o rótulo já era alvo de piadas. Revistas ironizavam a estética, e os próprios artistas tentavam se afastar do nome.

Algumas razões ajudam a explicar o desgaste. Primeiro, o hype foi rápido demais, e a cena não teve tempo de crescer de forma orgânica. Depois, muita gente passou a copiar só o visual, sem a profundidade do som. Por fim, os principais nomes seguiram caminhos próprios e deixaram o rótulo pra trás.

Mesmo assim, o desaparecimento foi só aparente. Como muitos microgêneros da internet, o witch house não morreu: ele se espalhou e virou ingrediente de outros estilos.

O que ficou: a herança do witch house

Hoje, é fácil encontrar rastros do gênero em vários lugares.

No cloud rap

O cloud rap, com batidas etéreas e clima de sonho, bebeu muito dessa fonte. Produtores do rap alternativo pegaram as texturas nebulosas e as vozes desaceleradas e levaram pra outro contexto. A gente conta essa história no guia sobre o cloud rap.

No sigilkore

Mais recentemente, o sigilkore resgatou a ideia de símbolos ocultos e caracteres especiais nos nomes. A ligação é direta, e a gente explicou esse gênero no texto sobre o sigilkore, o oculto que virou gênero na internet.

No rap de terror

Além disso, o gosto pelo terror conversa com uma tradição mais antiga do hip-hop: o horrorcore, que já usava temas macabros desde o fim dos anos 1980. A história completa está no guia sobre o horrorcore.

No phonk sombrio

Por fim, o phonk também carrega parte dessa estética. As vozes desaceleradas, os samples de terror e o clima de ritual estão presentes em muitas faixas do gênero.

Witch house e funk bruxaria: o oculto em dois continentes

Aqui a história fica interessante pra quem vive a cena brasileira. Anos depois do auge do witch house, o funk de São Paulo desenvolveu a sua própria versão do som ocultista: o funk bruxaria.

Não existe uma linha direta de influência. São cenas diferentes, com origens diferentes. Ainda assim, as duas compartilham elementos: vozes distorcidas, samples sombrios, clima de ritual e um gosto pelo macabro como linguagem estética.

Se quiser entender o lado brasileiro, comece pela estética sombria do bruxaria, que mostra como elementos de terror foram absorvidos pelo funk de rua. Depois, vale ler a origem do funk bruxaria.

A diferença está na pista

A grande diferença é a energia. Enquanto o witch house é lento e contemplativo, o funk bruxaria é feito pra pista, com grave pesado e batida que não para. Ou seja, o oculto brasileiro dança.

O witch house pelo mundo

Embora tenha nascido nos Estados Unidos, o gênero encontrou públicos fiéis em outros países. Na Rússia e no leste europeu, por exemplo, uma cena própria se desenvolveu nos anos seguintes, com produções ainda mais frias e eletrônicas.

Além disso, artistas pop de diferentes lugares absorveram a estética. O clima sombrio, as vozes processadas e o visual ocultista aparecem em discos que nunca foram chamados de witch house, mas que claramente vêm dali.

Como ouvir witch house hoje

Se você quer começar, vale ir direto aos discos que definiram o som.

  • **Salem, King Night (2010).** É o disco essencial, porque reúne tudo o que o gênero tem de mais forte.
  • **oOoOO, oOoOO (2010).** Mostra o lado mais melódico, já que mistura sombra e delicadeza.
  • **Balam Acab, Wander/Wonder (2011).** Revela o lado etéreo, pois aposta em texturas e vozes suaves.
  • **Holy Other, Held (2012).** Apresenta a versão mais romântica, porque soa como tristeza em câmera lenta.

Depois, explore as playlists e os canais que reúnem a cena. Afinal, boa parte do witch house circulou fora das plataformas tradicionais, em uploads de fãs.

Como produzir com clima de witch house

Você não precisa de muito pra experimentar esse som em casa. Na verdade, boa parte da cena original produzia com equipamento simples, no quarto.

Desacelere tudo

Primeiro, trabalhe com andamentos lentos, entre 60 e 80 batidas por minuto, ou com uma batida de trap tocada em meio tempo. Depois, desacelere as vozes e os samples, porque é isso que cria a sensação de arrasto.

Coros e drones

Em seguida, construa a base com sintetizadores que lembrem órgão, coro ou sino. Notas longas e sustentadas funcionam melhor do que melodias rápidas. Além disso, um pouco de ruído de fita ou de vinil ajuda a envelhecer o som.

Espaço e eco

Por fim, use reverb sem medo. O gênero vive de espaço, de distância e de eco. Assim, cada elemento parece vir de um lugar diferente, como numa igreja vazia.

O visual da noite sombria

Se você vai a uma festa com esse clima, o visual pode acompanhar. Preto da cabeça aos pés é o ponto de partida. Depois, entram as texturas: renda, couro, tule, tecidos rasgados.

Além disso, os acessórios fazem diferença. Correntes, crucifixos estilizados, anéis grandes e véus combinam com a estética ocultista. No rosto, olhos esfumados, batom escuro e pele clara completam o visual. Pra deixar a make firme até o fim da madrugada, vale ler o guia de maquiagem para rave.

Por fim, lembre-se de que conforto conta. Bota pesada é linda, mas precisa aguentar horas de pista.

Witch house na pista

Embora seja lento, o gênero aparece em sets de DJs que gostam de criar clima. Em geral, ele funciona na abertura da noite ou em momentos de respiro, antes de a pista acelerar.

Inclusive, muitos DJs usam faixas desse tipo pra fazer a ponte entre o phonk, o trap e o funk bruxaria. O clima sombrio prepara a pista pro peso que vem depois.

Pra quem curte esse universo, a Season Final da Sad Baile tem noites com o mesmo espírito ritual. Em Belo Horizonte, a primeira edição se chama justamente Bruxaria e acontece na sexta-feira, 20 de novembro, no 299 Speed Shop BH. Já em Campinas, a Apocalipse leva funk bruxaria, phonk, trap e hard techno pro Tetriz Club, no sábado, 12 de dezembro.

Perguntas frequentes sobre witch house

O que é witch house? É um gênero eletrônico lento e sombrio, com vozes desaceleradas, sintetizadores escuros e estética ocultista, que surgiu por volta de 2009.

Quem criou o termo witch house? O nome costuma ser creditado a Travis Egedy, o Pictureplane, e a Jonathan Coward, o Shams, que usaram o termo meio de brincadeira.

Qual o disco mais importante do witch house? King Night, do grupo Salem, lançado em 2010.

Witch house tem a ver com funk bruxaria? Não existe ligação direta, mas os dois compartilham o clima ocultista, as vozes distorcidas e o gosto pelo macabro.

O witch house ainda existe? Como cena organizada, perdeu força depois de 2012. Mas a estética segue viva no cloud rap, no sigilkore e no phonk sombrio.

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#música sombria #ocultismo #witch house

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