Tem um gênero que junta guitarra afinada pra baixo, berro de hardcore e 808 estourado na mesma faixa — e que, em outubro, vai tocar ao vivo em três cidades brasileiras. O trap metal chega na pista com a ONI INC., direto de Las Vegas.
É um som que divide opinião desde que nasceu. E essa divisão faz parte do projeto.
O que é trap metal
Trap metal é o encontro de duas tradições que, no papel, não deveriam se encontrar. De um lado, a batida de trap: 808 distorcido, hi-hat picado, andamento arrastado. Do outro, o vocabulário do metal: guitarra afinada pra baixo, vocal gritado, textura industrial herdada do nu metal.
O resultado é aquilo que a crítica especializada chama de frankenstein de formas contrárias — subversivo e polarizador ao mesmo tempo. Ou seja: não existe meio-termo aqui. Ou a pessoa entra, ou a pessoa sai da sala.
De onde o gênero veio
O trap metal nasceu no underground do SoundCloud na metade dos anos 2010, no mesmo caldo que produziu o emo rap. A mixtape Useless, do americano Bones, lançada em 2016, costuma ser citada como o empurrão inicial.
Depois vieram os nomes que definiram o formato: Ghostemane, scarlxrd e o City Morgue. Cada um puxando de um lugar diferente — ZillaKami, do City Morgue, cita Slipknot, DMX e Title Fight como referência, enquanto Ghostemane veio do black metal e do Three 6 Mafia.
Entre 2016 e 2019 o gênero teve sua fase mais fértil. Desde então ele não desapareceu: ficou adulto, ganhou turnês de arena e seguiu alimentando uma base de fãs que não troca por nada.
O parentesco com o emo rap
Trap metal e emotrap são irmãos que escolheram emoções opostas. Os dois saíram do mesmo SoundCloud, nos mesmos anos, usando as mesmas ferramentas.
A diferença está no destino da dor. No emotrap, ela vira melancolia e fica pra dentro — foi o caminho de Lil Peep. No trap metal, ela vira raiva e vai pra fora.
Por isso os dois públicos se misturam tanto. É a mesma geração, com o mesmo repertório de referências, escolhendo canais diferentes pro mesmo incômodo.

A ONI INC. e o trap metal ao vivo
ONI INC. começou fazendo trap convencional e migrou para o trap metal ao longo da discografia, passando inclusive por faixas de metalcore. O álbum Good & Evil Don’t Exist, de 2025, com treze faixas, é catalogado ao mesmo tempo como rap alternativo, rock e metal.
O show de lançamento dele, em janeiro de 2025 numa cervejaria de Las Vegas, foi anunciado como trap metal somado a punk e EDM — o que resume bem o tamanho da caixa onde o projeto cabe.
No Brasil ele passa por São Paulo no dia 17 de outubro, pelo Rio no dia 23 e por Campinas no dia 24. Os detalhes estão na página da turnê.
Por que trap metal funciona numa pista brasileira
Pode parecer um salto, mas não é. O público daqui já atravessou o grave distorcido do funk automotivo e a agressividade do funk bruxaria. O ouvido está acostumado com saturação.
Além disso, a estética combina. A cena alternativa brasileira já se veste de preto, já usa a imagética pesada e já ouve hard trap no fone. Faltava a parte ao vivo.
E tem um detalhe que só aparece na pista: o estilo tem dinâmica de banda, não de DJ set. Tem queda, tem silêncio, tem retomada. Isso muda o comportamento do público.
Cinco faixas pra entender o gênero
Se você quer chegar na noite sabendo do que se trata, comece por aqui. Ghostemane, em Mercury, mostra a ponte entre trap e black metal. scarlxrd, em HEART ATTACK, entrega a fórmula do berro sobre 808.
City Morgue, em SHINNERS 13, traz a parte mais hardcore. Bones, em qualquer faixa de Useless, mostra a origem. E a ONI INC., no álbum mais recente, mostra onde o gênero está agora.
Nossa lista de referências do som mais pesado complementa o caminho.
O que esperar da pista
Set de trap metal provoca reação física. Aparece roda, aparece empurrão, aparece gente pulando fora de compasso. Isso é esperado e faz parte — mas exige alguns cuidados básicos, que a gente destrinchou no texto sobre mosh pit.
Se não é a sua praia, a pista é grande. Dá pra curtir o set de longe e voltar pra frente quando o funk retornar.
Um gênero que envelheceu bem
Dez anos depois, o trap metal provou que não era só uma piada de internet. Ele construiu público, sustentou turnê e virou referência pra uma geração inteira de produtores.
Agora ele chega aqui ao vivo. E a melhor forma de descobrir se você gosta é no volume certo, com a pista cheia. As datas estão na agenda — comenta aí se você já ouvia o gênero ou se vai conhecer agora.
Fontes: panorama do gênero na Metal Injection e ficha da ONI INC. no Album of The Year.




